/Águas das termas de Cabeço de Vide despertam a atenção da NASA

Águas das termas de Cabeço de Vide despertam a atenção da NASA

Se houver água em Marte, os cientistas dizem que pode ser muito semelhante à que há em Cabeço de Vide . Em Cabeço de Vide nasce uma água diferente, única em Portugal e rara no mundo. As características ímpares da água despertaram a curiosidade da NASA.

Uma equipa da agência espacial americana deslocou-se ao Alto Alentejo. Os cientistas acreditam que as rochas encontradas são semelhantes às de Marte e às de duas luas do sistema solar.
Num parque de plátanos plantados em esquadria, duas casas brancas protegem os furos de água. Dentro, as bombas trazem à superfície água captada a 120 metros de profundidade.A grande diferença da água da profundidade de Cabeço de Vide está no alto pH. A água é muito alcalina, tem um pH de 11,50, bem acima das de consumo diário.
Água não mata a sede “Nem sequer podemos consumir para saciar a nossa sede”, afirma a hidrogeóloga Carla Rocha, “porque o nosso organismo não aguenta uma alcalinidade muito grande”.

Pouco recomendada para beber, a água é muito procurada para efeitos terapêuticos. “Este meu braço esquerdo só se movia com um ângulo muito pequeno. Corri médicos, fui a Espanha, até levei uma infiltração. Não resultava. Comecei a fazer banhos em Cabeço de Vide e fiquei totalmente curado”, afirma o professor João Ribeirinho Leal, que acrescenta que “estas águas, podemos dizer, são milagrosas”.

As propriedades curativas da água sulfurosa e alcalina são conhecidas desde os romanos. Dois mil anos depois, as Termas da Sulfúrea tratam dezenas de doenças de pele, do aparelho respiratório e osteoarticular. O volumoso edifício no meio do campo é como um hospital sem químicos e com um único medicamento, a água.

Cientistas da NASA no Alto Alentejo

As rochas determinam o pH da água captada em profundidade. A química dos minerais em Cabeço de Vide é idêntica à encontrada no planeta Marte. A semelhança é tanta que despertou a curiosidade da NASA.  “As águas em Cabeço de Vide resultam da serpentinização. As rochas são desidratadas, são olivinas sem água. Estes são materiais que a NASA acredita existirem também noutros planetas”, diz o astrobiólogo da NASA, Steve Vance.  A serpentinização é um fenómeno químico que acontece quando uma rocha rica em magnésio e ferro é convertida em minerais de argila do grupo das serpentinas. Os investigadores da agência espacial americana deslocaram-se três vezes a Portugal e acreditam poder ainda encontrar rochas semelhantes nas luas de Saturno e Júpiter.  As rochas são a chave para compreender a água e chegar mais longe. “Se tivermos água no estado líquido em Marte podemos ter água muito semelhante à que temos em Cabeço de Vide”, adianta a investigadora Carla Rocha.

Em Cabeço de Vide, freguesia alentejana do concelho de Fronteira, as cerca de mil pessoas que vivem na vila já estão habituadas a ver investigadores, portugueses e estrangeiros, andarem cá e lá com complicados aparelhos de análise e medição. E, na verdade, sentem-se orgulhosos pela atenção dispensada ao património local.
As propriedades terapêuticas das águas minerais naturais da zona são conhecidas e usadas há centenas de anos, mas, em 2000, o então diretor técnico das Termas da Sulfúrea solicitou ao Instituto Superior Técnico (IST) um estudo para melhor as conhecer e preservar.
As águas captadas na nascente Ermida das termas começaram a despertar maior a atenção das universidades portuguesas e internacionais (Itália, Japão, EUA), e a NASA.
Na origem de todo este interesse e de tantos estudos académicos está um processo geoquímico chamado serpentinização, que acontece quando uma rocha rica em magnésio e ferro é convertida em minerais de argila do grupo das serpentinas. Juntamente com o pH elevado, este processo produz hidrogénio que, por sua vez, pode conduzir à formação de microrganismos, ou seja, gerar vida.